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Cinturão de sargaço do Atlântico se torna permanente e previsível

Cinturão de sargaço do Atlântico se torna permanente e previsível
Publicado em 26/05/2026 às 2:44

Um novo estudo internacional confirmou que o Grande Cinturão de Sargaço do Atlântico é agora uma característica permanente do oceano.

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A pesquisa, liderada por Annalisa Bracco, do Centro Euro-Mediterrâneo sobre Mudanças Climáticas (CMCC, na sigla em inglês), também demonstrou, pela primeira vez, a capacidade de prever essas florações com meses de antecedência.

O cinturão se estende por mais de oito mil quilômetros da África Ocidental ao Caribe, com biomassa total que ultrapassou 37 milhões de toneladas em 2025. As algas chegam anualmente em quantidades catastróficas às praias do Caribe, Golfo do México e costa oeste africana, causando custos de limpeza de centenas de milhões de dólares.

De fenômeno climático a sistema autossustentável

  • O Grande Cinturão de Sargaço surgiu em 2011, quando ventos de inverno mais fortes aprofundaram a camada mista do oceano e empurraram nutrientes para a superfície, desencadeando crescimento explosivo de algas. Inicialmente, cientistas atribuíam as florações a forças físicas, como vento, circulação oceânica ou ressurgência de nutrientes;
  • O novo estudo revela que essa explicação não é mais suficiente;
  • O cinturão desenvolveu sua própria ecologia interna, com esteiras flutuantes que abrigam comunidades de organismos marinhos capazes de reciclar nutrientes, como nitrogênio, dentro das próprias algas. As algas em decomposição liberam esses nutrientes de volta na água circundante;
  • “É um exemplo marcante de como o oceano pode se reorganizar muito rapidamente”, disse Bracco ao Earth.com. “O que começou como um evento impulsionado pelo vento se tornou um sistema biológico autossustentável.”

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Cinturão desenvolveu sua própria ecologia interna, com esteiras flutuantes que abrigam comunidades de organismos marinhos capazes de reciclar nutrientes – Imagem: FGI Nature/Shutterstock

Previsões que mudam a resposta ao problema do sargaço

Utilizando um modelo construído com dados de satélite e observações oceanográficas, a equipe reconstruiu como as concentrações de sargaço mudaram entre 2011 e 2022. O modelo foi testado prevendo concentrações para 2023 e 2024 com sucesso.

A capacidade de prever as florações com meses de antecedência muda fundamentalmente a lógica de resposta. A abordagem atual é reativa: as algas chegam, comunidades se mobilizam, recursos são gastos em limpeza e o ciclo se repete. Previsões confiáveis podem quebrar esse ciclo, permitindo preparação antecipada e até interceptação em águas abertas.

“O fato de agora podermos compreendê-lo e prevê-lo significa que também podemos começar a pensar seriamente em como gerenciá-lo“, completou Bracco.

Enquanto flutua no oceano, o sargaço absorve dióxido de carbono da atmosfera através da fotossíntese, funcionando como um sumidouro natural de carbono. O problema surge quando alcança a costa e se decompõe, liberando o carbono de volta à atmosfera.

Segundo Bracco, a intervenção antes da chegada às praias poderia transformar o sistema em parte da solução climática. As opções incluem colher o sargaço em alto mar e afundá-lo no oceano profundo, onde o carbono permaneceria sequestrado por séculos, ou processá-lo em biocombustíveis e outros materiais.

Comunidades absorvem custos há 15 anos

As comunidades afetadas têm arcado com enormes custos nos últimos 15 anos sem ferramentas preditivas, planos de gestão de longo prazo ou coordenação internacional séria. O que receberam foram fundos de limpeza emergencial aplicados anualmente a um problema que deixou de ser emergência para se tornar condição permanente.

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O estudo fornece elementos para uma abordagem diferente: explicação clara do funcionamento do sistema, capacidade preditiva demonstrada e estrutura científica para pensar em intervenção ao invés de apenas resistência. A pesquisa foi publicada na revista Nature Communications.

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli

Rodrigo Mozelli é jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e, atualmente, é redator do Olhar Digital.

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Henrique
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