Economia
Esquema na Educação que levou à prisão de deputado se espalhou por todo o Rio, diz PF

A ação da Polícia Federal que prendeu o deputado Thiago Rangel (Avante) na manhã de terça-feira teve como foco a atuação do parlamentar num esquema de fraudes em contratos de reformas e serviços em escolas públicas estaduais do Norte Fluminense. A PF acredita, porém, que o organograma da organização criminosa seja maior e tenha afetado todo o estado do Rio. A informação consta em relato da polícia incluído na decisão do Ministro Alexandre de Morais que determinou a prisão de integrantes do grupo.
“O esquema consistiria no direcionamento de obras de reformas em Escolas Públicas Estaduais do Norte Fluminense – região de influência política tanto de Rodrigo da Silva Bacellar quanto do deputado estadual Thiago Rangel Lima – para empresas pré-ajustadas com os integrantes da organização criminosa, viabilizando o posterior repasse de recursos públicos desviado para os membros da organização. Acredita-se que o esquema criminoso seja mais amplo e tenha sido estruturado em todo o estado do Rio de Janeiro, com base no apoio político dado à Rodrigo Bacellar”, afirmou a PF.
A Polícia Federal destaca ainda a atuação de Thiago Rangel em municípios como o de Campos dos Goytacazes, no Norte Fluminense.
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“Até o presente momento, o que fora constatado é que o Deputado Estadual Thiago Rangel passou a administrar uma parte do esquema criminoso, àquela que estava sob a sua influência política regional (em Campos dos Goytacazes e adjacências). Acredita-se que o esquema criminoso tenha sido partilhado entre políticos estaduais da base de apoio do ex-deputado estadual Rodrigo da Silva Bacellar, da qual o deputado estadual Thiago Rangel Lima passou a fazer parte”, pontuou a polícia.
Operação Unha e Carne
Na manhã de terça-feira, agentes da Polícia Federal prenderam o deputado estadual Thiago Rangel (Avante). Ele e outras seis pessoas foram alvos da quarta fase da Operação Unha e Carne. O grupo é suspeito de atuar em organização criminosa envolvida em fraudes sistemáticas na compra de materiais e contratação de serviços, incluindo obras de reforma, no âmbito da Secretaria de Estado de Educação (Seeduc). É a terceira vez em oito meses que a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) tem um parlamentar preso.
Segundo relato da PF incluído na decisão de Moraes, a operação avançou a partir de dados extraídos de um computador apreendido na Alerj, em um local vinculado ao gabinete do então deputado Rodrigo Bacellar (União), preso em dezembro do ano passado, solto logo depois por decisão de seus pares na Assembleia, e novamente preso em março deste ano. O ex-deputado é acusado de vazar uma operação policial a outro político: o ex-deputado TH Joias preso, em setembro, suspeito de ser o braço político e operador financeiro do Comando Vermelho.
Os mandados de prisão preventiva contra os sete suspeitos — todos cumpridos na ação de ontem — foram expedidos pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), assim como 23 ordens de busca e apreensão em endereços na cidade do Rio, em Campos dos Goytacazes, na região Norte, e em Miracema e Bom Jesus do Itabapoana, no Noroeste Fluminense. A decisão inclui ainda o afastamento do parlamentar da função pública.
Entre os arquivos encontrados pelos investigadores no computador ligado ao ex-presidente da Casa, foi identificada uma planilha com a relação de deputados estaduais e as respectivas indicações para cargos em órgãos estratégicos do governo do Estado. A partir daí, foram reunidas informações que serviram de base para a expedição dos mandados.
Na Educação, o esquema perpetrado por Rangel, segundo a PF, consistiria no direcionamento de obras de reforma em escolas públicas do Norte Fluminense para empresas pré-definidas com integrantes da organização criminosa.
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Os agentes da PF cumpriram mandado contra Rangel pela manhã, em Campos, onde ele mora e tem sua base eleitoral, assim como Bacellar, de quem é próximo politicamente. Com ele, foi apreendido um carro de luxo avaliado em cerca de R$ 900 mil.
Peça Central
Rangel é apontado como peça central do esquema em sua área de influência, que engloba, além de Campos, cidades do Noroeste Fluminense. Segundo a PF, o deputado teria utilizado sua posição política — primeiro como vereador em Campos e, depois, na Alerj — para viabilizar a nomeação de aliados em cargos estratégicos, o que permitiria interferência em contratos públicos e facilitaria fraudes em licitações. Em cinco anos, o patrimônio de Rangel multiplicou 34 vezes: saiu de R$ 92 mil, em 2019, antes de ser eleito vereador, para R$ 3,1 milhões ao fim de 2023, como deputado.
Entre as empresas envolvidas no esquema, segundo consta na decisão do Supremo, duas têm como sócia a mulher de Luiz Fernando Passos de Souza, também preso. Ele é apontado como o operador financeiro de Rangel, atuando na movimentação de recursos do esquema. Numa troca de mensagens com o deputado, ele chega a enviar uma foto em que aparecem maços de notas de R$ 200 e R$ 100 lado a lado. E escreve: “Guardado…” ao que Rangel responde com uma figurinha dele próprio fazendo com a mão o sinal característico de “positivo”.
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De acordo com a investigação, ele utilizava empresas registradas em nome de terceiros, como a de sua companheira, para receber e repassar valores desviados, incluindo recursos ligados à Educação.
Duas das empresas envolvidas no esquema são a E H Almeida Reformas e Construções Ltda e a E H Almeida de Souza Casas de Festas. Ambas têm como sócia a mulher de Luiz Fernando Souza. Elas seriam usadas principalmente para receber recursos de outras empresas, entre elas, a T.H. Rio Administração e Participações Ltda, cujo administrador de fato seria o próprio deputado Thiago Rangel.
Em cinco operações realizadas entre julho de 2023 e janeiro de 2024, as referidas empresas receberam da T.H. quase R$ 300 mil. Entre janeiro de 2024 e agosto de 2025, os repasses somaram mais R$ 424,5 mil.
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Outra empresa citada é a VML Comércio e Serviços Eireli, que recebeu recursos relacionados a intervenções em escolas públicas. A investigação aponta que ela também recebeu repasses diretos de unidades escolares estaduais: apenas em janeiro de 2025, foram identificados créditos que somam R$ 225 mil provenientes dessas instituições.
Segundo os investigadores, conversas extraídas do celular de Rangel e de seu operador financeiro indicam tratativas para manipulação de licitações e articulação direta com empresários envolvidos em contratos de obras. Os diálogos fazem referência à liberação de serviços e à divisão de valores após a assinatura dos contratos, além de menções a saques em dinheiro vivo. Em alguns trechos, há indícios de organização prévia das contratações e de repasses vinculados à execução das obras, o que, para a PF, reforça a suspeita de desvio de recursos públicos e uso de um sistema de pagamentos paralelos.
As compras e obras investigadas, que já haviam sido alvo de denúncias do deputado estadual Flávio Serafini (PSOL), integrante da Comissão de Educação da Alerj, também são mencionadas na decisão de Alexandre de Moraes.
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Também foram presos Fábio Pourbaix Azevedo, apontado como “braço direito” de Rangel e principal operador das fraudes em licitações desde a época em que o deputado era vereador; Rui Carvalho Bulhões Júnior, ex-chefe de gabinete da Presidência da Alerj na gestão de Rodrigo Bacellar, tido como responsável por intermediar negociações; Júcia Gomes de Souza Figueiredo, diretora Regional de Educação Noroeste; Marcos Aurélio Brandão Alves, apontado como possível “laranja” no esquema; e Vinicius de Almeida Rodrigues, sócio da VAR Construtora, empresa citada em contratos investigados. Os investigados poderão responder por organização criminosa, peculato, fraude à licitação e lavagem de dinheiro.



